Testemunhos

Muitas mulheres deparam-se em determinada altura da vida com gravidezes inesperadas. Algumas sentem a necessidade de partilhar a sua experiência e de conhecer a experiência de outras mulheres. Nesta secção poderá ler algumas partilhas de quem viveu uma gravidez inesperada. Se gostar de partilhar a sua experiência com outras mulheres que vejam este site, pode fazê-lo aqui: 800 910 971

Eu decidi fazer uma IVG

A minha história começa quando me apaixonei pela pessoa errada, num momento em que me encontrava fragilizada. Ao passar de uns tempos, comecei a estranhar o período menstrual não vir.

Então resolvi ir comprar e fazer um teste de gravidez… o resultado desse teste foi negativo e fiquei super aliviada, como podem imaginar. Mas nesse dia à noite fui ter com o meu namorado e em conversa acordámos fazer outro teste só para tirar as dúvidas…. Então fomos para um descampado, longe de tudo. O resultado do teste desta vez foi… positivo. O meu namorado ao ver tal coisa encheu-se de raiva e eu só tive tempo de sair do carro e correr pela minha vida, pois sei que seria brutalmente espancada.

 

Depois contei à minha mãe, que prontamente me apoiou e fomos ao médico. O meu namorado nessa altura já tinha vindo pedir mil desculpas e acompanhou-me em todo o processo. Fomos ao médico ginecologista que confirmou o teste: estava grávida. No meio de todo este turbilhão de emoções, havia um fator que poderia ser determinante para o desenvolvimento do bebé: eu tinha feito (já grávida, mas sem o saber) um antibiótico super forte para uma otite que tive. O presságio do médico não foi bom e disse-nos para pensarmos muito bem.

 

Os dias foram passando e uma decisão tinha de ser tomada… na altura tinha 30 anos e apesar de trabalhar a part-time estava ainda a terminar o curso universitário. Com a lei que existe em Portugal, eu tinha de tomar uma decisão. A minha decisão foi abortar, não ter o meu bebé.

Depois foram as idas ao hospital para que todo o processo pudesse decorrer… até que chega o dia em que me dão 2 comprimidos para colocar na vagina e me mandam para casa. À hora marcada pelos médicos, introduzi os comprimidos e passados 15 minutos comecei com hemorragias e dores… O resto, o sofrimento da expulsão não me lembro muito bem… sei que tive dores horríveis, que a minha mãe nunca me deixou (e segundo ela que várias vezes estive mesmo muito mal), mas o resto não me lembro.

 

Esta não é a parte pior, o pior ainda estava para vir: a culpa, a solidão, a dor de ter morto alguém, a desilusão comigo própria, o vazio… Durante alguns meses vivi tudo isto no silêncio da dor, pois esta é dilacerante…

 

Passado um tempo falei com um amigo que é para mim um irmão mais velho que me disse: “Tu és mãe! Agora diz-me que nome tem o teu filho ou filha”…. Eu fiquei estupefacta… jamais tinha pensado desta forma…. Veio-me ao coração que seria mãe de uma menina e que o nome que ela teria (e tem) só poderia ser um: Maria! Este amigo disse-me ainda: “escreve uma carta à tua filha a pedir-lhe perdão, escreve toda a dor e tudo o que tens no teu coração”! Essa carta demorou 1 ano a ser escrita, pois não tinha coragem e sentia o peso de ainda não me sentir perdoada.

 

Até ao dia que encontrei esta imagem num blog com a seguinte legenda: “Inaugurada recentemente na Eslováquia, a obra do escultor Ivan Uhliarik, que expressa o drama da mãe visitado pelo perdão do filho que não chegou a nascer”…. Fiquei “petrificada”, mas o meu coração sentiu uma verdadeira alegria! Senti-me completamente “visitada” pela situação, e em particular pela Maria.

 

A partir desse momento, tive a certeza que tenho uma filha que olha por mim! A quem vive esta dor dilacerante… a ajuda existe, tu mereces ser amada… não te feches em ti própria e arrisca, procura ajuda!

 

– Cátia, 37 anos

Eu decidi não fazer uma IVG

Eu tinha namoro há três anos com o Duarte e tínhamos acabado o namoro em março e voltámos em maio. Foi um ano difícil, tinha saído de casa da minha mãe e tinha começado a trabalhar. A mãe do meu namorado ficou doente com um cancro. Achei que podia estar à espera de bebé porque o período não aparecia e porque estava muito enjoada. Talvez com 15 dias de atraso decidi fazer o teste de gravidez que deu positivo. Senti um medo horrível ao ver o resultado. Nunca pus a hipótese de abortar mas nesse primeiro dia passou-me pela cabeça durante alguns segundos que bom que era se perdesse este bebé. Depois fiquei tristíssima com o simples facto de isto me passar pela cabeça e senti-me muito culpada. Durante algum tempo estive em negação, achei que se calhar não estava grávida. Talvez o teste estivesse errado…

 

Preocupava-me imenso ter começado a trabalhar e a receber tão pouco…. Como é que iria contar no trabalho? Mas contei ao meu patrão, e a resposta foi: “mas sabes que há soluções para isso. Não estás a pensar continuar com essa gravidez, ou estás?” Isto deixou-me maluca e a querer sair de lá o mais rápido possível.

 

Nunca me senti sozinha, o Duarte esteve sempre ao meu lado. Quando contei, a maior parte das pessoas não me julgou, mas houve algumas que fizeram sentir que as desiludi, embora isso não me afetasse. Nunca tive vergonha mas sentia-me muito assustada ao pensar como é que ia ser mãe com tão pouco dinheiro e como é que ia dar continuidade a este projeto de família.

Os medos que eu tinha deixaram de existir quando, ao fim de um mês de saber que estava grávida, fiz a ecografia e vi o bebé. Outra coisa que também me acalmou imenso foi ouvir o coração do bebé a bater. A partir daí aceitei.

 

Os primeiros dias a seguir a ter a certeza que estava grávida pensava que era muito nova e queria ainda fazer imensas coisas: estudar mais, ir viver para fora,….enfim, ser ainda miúda. Tive pena de ter de passar a ser muito mais responsável e parar com algumas coisas que fazia: sair à noite, estar disponível para os amigos…

 

Não há nenhuma palavra no mundo que traduza a imensidão daquilo que se sente quando o bebé nasce: quando vês, quando sentes o cheiro, quando percebes que é teu para sempre. É como um amor descontrolado.

Hoje sinto uma enorme gratidão por ter a sorte de ser mãe desta criança e dos irmãos dele. Sou apaixonada pelos meus filhos e em conjunto com o Duarte, e isto é tudo!

 

– Clara, 35 anos.